quinta, 24 de julho de 2014 - 13:22h

O projeto Grande Carajás - PGC e consequencias

O PROJETO GRANDE CARAJÁS – PGC E ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS REGIONAIS

Por: Raimundo Lima dos Santos 1

RESUMO:
O Projeto Grande Carajás, foi um mega empreendimento liderado pelo governo federal  no início da década de 1980, com o objetivo central de  extrair os minérios descobertos na Serra dos Carajás, estado do Pará. Além da extração e processamento mineralógico, inclui-se projetos agropecuários e de reflorestamento de eucalipto, dentre outros, em gastos superiores a 62 bilhões de dólares. Um dos principais objetivos do projeto consistiu em atrair investimentos estrangeiros para a Amazônia Oriental, com o intuito de amenizar a crise financeira que o país enfrentava na época. Apesar de ter apresentado alguns resultados positivos, trouxe uma série de problemas ambientais, sociais e culturais a boa parte das populações locais, especialmente quebradeiras de coco.

Palavras chave: PGC, Quebradeiras de Coco, Projeto alternativo.

ABSTRACT:
The Grand Carajas Project was a mega venture led by the federal government in early of the 1980s, with the central goal of extracting and ores discovered in Serra dos Carajás, Pará Beyond the extraction and processing of ore, projects agricultural and reforestation of eucalyptus, among others, covering expenditures exceeding 62 billion dollars. One of the main objects of the project consisted in attracting foreign investment to the Amazon East in order to alleviate the financial crisis that the country faced at the time. Despite having submitted some positive results, has a number of environmental, social and cultural rights for local populations.

Keywords: PGC, Quebradeiras of Coco, Project alternative.

APRESENTAÇÃO

O Projeto Grande Carajás foi um mega empreendimento econômico, político e social que teve início oficial em princípio da década de 1980, ainda que se tenha conhecimento de pretensões e de ações econômicas na região desde décadas anteriores, quando alguns diagnósticos apontavam a existência de metais na área. Esse empreendimento mineralógico foi executado, em sua maior parte, pelo governo brasileiro, mesmo assim, sua concepção e benefícios são compartilhados equitativamente com empresas estrangeiras.
Na primeira metade da década de 1950 o Programa de Emergência da SPVEA afirmava a existência de minerais na Amazônia. Desde então essa região foi percebida como uma fonte de riqueza potencial, até que no final dos anos 1970 divulgou-se publicamente o conhecimento de jazidas minerais na Serra dos Carajás. Organizou-se um aparato em favor de operacionalizar os recursos minerais, com a mais expressiva iniciativa governamental já realizada na Amazônia. Por meio da realização dessas ações foi possível mapear, controlar e explorar praticamente todo o território.
Para o funcionamento do projeto em sua estrutura de modo geral, o governo federal disponibilizou de elevado volume de dinheiro, oriundo de empréstimos em instituições financeiras nacionais e estrangeiras. Inicialmente esse investimento seria direcionado à construção de uma infra-estrutura básica: rodovias e ferrovia; também a reforma de portos e aeroportos, dentre outros  empreendimentos menores.
De maneira geral o objetivo foi a extração do minério, que seria transportado até o litoral e de lá embarcar para outras partes do mundo. Outra parte do projeto consistia em trabalhar o ferro gusa em empresas no próprio país, por isso foi necessária a construção de uma hidrelétrica em Tucuruí, no Pará, com o objetivo especial de fornecer energia elétrica a essas siderúrgicas nacionais.
Em termos político-sociais o governo ampliou consideravelmente o controle sobre as terras e o território amazônico oriental. Conseguiu reduzir conflitos agrários, por meio da doação de terras e pela força institucional e simbólica, que “permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica) ... que só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário...” (BOURDIEU, 2005, p. 14). Uns dos principais objetivos do governo, com a distribuição de terras, foi reduzir subversões sociais e políticas.
Aqui leva-se em consideração tanto o poder institucional, jurídico, físico, quanto o poder simbólico, tal como Bourdieu define, pois entende-se que as duas formas são importantes para se tentar entender as formas de organizações sociais em conflitos:
O poder simbólico é um poder (econômico, político, cultural ou outro) que está em condições de fazer reconhecer, de obter o reconhecimento, ou seja, de se fazer ignorar em sua verdade de poder, de violência arbitrária. A eficácia própria desse poder exerce-se não no plano da força física. Mas sim no plano do sentido e do conhecimento (...) (BOURDIEU, 2000, p. 60).

Outra categoria que se utiliza neste texto é a noção de campo, porque permite uma abordagem mais específica em relação às categorias sociais, não apenas pautadas em classes “...evitando assim todas as espécies de reducionismo, a começar pelo econômico...” (BOURDIEU, 2005, p. 69). Isso leva a perceber que “Os que ocupam as posições dominadas no espaço social estão também em posições dominadas no campo de produção simbólica” (Idem,  p. 152). Nessa perspectiva analisa-se os conflitos de Carajás, que vão além da esfera econômica e partem em direção a outras esferas do social.

A FORMAÇÃO DO PGC

Desde as primeiras descobertas de minério, em escala industrial no território brasileiro, datadas por volta das primeiras décadas do século XX, empresas estrangeiras exercem elevada influência sobre o minério brasileiro. Percebe-se claramente que os campos econômico, político e cultural internacionais subordinaram o Estado brasileiro no sentido de reduzir sua autonomia, em múltiplas esferas sociais, e forçar a criação de leis favoráveis a seus interesses.
A criação da Companhia Vale do Rio Doce - CVRD, em 1942, representou relativa independência do país em relação ao controle de seus minérios, ainda que isso não significasse uma autonomia substancial. Apesar de muitas conquistas nesse campo, os interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial foram assegurados com prioridade. E ao final da guerra, os países ocidentais sentiram necessidade de recuperar suas indústrias siderúrgicas, e os minérios Brasileiros foram importantes nesse intento.
Nos governos militares essa política de aproximação com os estrangeiros chega ao ápice. No início da década de 1970, o Estado aprovou uma ação conhecida por Projeto Radam Brasil. Um dos principais objetivos foi mapear praticamente toda a Amazônia, com especial atenção, naquele momento, para a existência dos minérios. A partir desse “novo” conhecimento em relação às jazidas minerais nacionais, grupos estrangeiros se sentiram mais seguros para realizar uma nova empreitada de exploração mineral.
Um dos principais objetivos do Projeto Radam, Radar da Amazônia, foi a efetivação de um levantamento dos recursos minerais e de aptidão dos solos. Desde 1967 pesquisas apontavam para a existência de minério de ferro na região da Serra dos Carajás, no Sul do Pará. Através de imagens de radar permitiu-se também o levantamento dos recursos florestais (KOWARICK, 1995, p. 39).
Um dos pré-requisitos para a elaboração do Projeto Grande Carajás foi uma profunda crise financeira que assolava o país na época de sua implantação; o governo intencionava atrair investimentos externos com o intuito de superar a crise. Tendo por base os discursos, havia certa preocupação em realizar um projeto capaz de integrar a Amazônia e pagar a dívida externa, para resolver os problemas sociais e econômicos do país.
Previu-se, só para a primeira década do projeto, investimentos superiores a 60 bilhões de dólares para a Amazônia oriental (COTA, 1984, p. 60-1). Para o andamento inicial do empreendimento foi organizado um conjunto infra-estrutural composto de portos, aeroportos, rodovias, hidrovias, hidrelétrica, dentre várias outras obras. Contaria, ainda, com um capital social de mais de cinco milhões de pessoas e com um território de 1,7 milhão de quilômetros quadrados, ou 35% da Amazônia legal (IBASE, 1983, p. 40).
As pretensões da Vale era produzir anualmente 35 milhões de toneladas de minério de ferro, sob a forma de ferro gusa. Já os objetivos do PGC como um todo seriam: a exploração dos recursos naturais; saldar os compromissos externos, provocados pelo enorme endividamento; executar empreendimentos produtivos, com favorecimento a empresas nacionais e estrangeiras na aquisição de lucros financeiros.
Além disso, podem ser acrescentados outros empreendimentos que complementam o PGC, a saber: mineração Rio do norte, com a pretensão de exportar, na primeira metade da década de 1980, 3,4 milhões de toneladas de bauxita por ano; Alunorte, produção de 800 mil toneladas de alumina por ano; Albrás, produção de 320 mil toneladas anuais de alumínio; Alcoa, produção de 500 mil toneladas por ano de alumina e 100 mil toneladas de alumínio (e uma perspectiva de quadruplicar essa produção). Esses projetos foram classificados em quatro setores que correspondem ao mínero-metalúrgico, reflorestamento, agricultura e pecuária. (Idem, 1983, p. 58).
A partir da crise do petróleo no início da década de 1970, grande parte das indústrias consumidoras, em larga escala, de energia foi transferida dos países ricos para as periferias, com o objetivo de reduzir o consumo energético em seus territórios, ao mesmo tempo, reduzir os custos de produção.
A Amazônia, especialmente a oriental, seria o locus propício para investimentos como esses, pois além da abundância de energia e mão-de-obra, proporcionava significativas vantagens em relação a uma legislação largamente tolerável quanto a atividades poluentes e devastadoras dos recursos naturais. Somado a isso, assegurou a posse de grandes quantidades de terras e direitos minerais a empresas que investissem na região.
O governo federal efetivou a titulação das terras do PGC, que corresponde a cerca de 90 milhões de hectares, com seis milhões no Goiás, atual Tocantins, trinta e um milhões no Maranhão e cinqüenta e três no Pará. (COTA, 1984, p. 79). O órgão responsável pelo controle dessas terras foi o Grupo de Execução das Terras do Araguaia-Tocantins, GETAT. Outros dois órgãos de importância salutar aos empresários foram a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, SUDAM, que aprovava os projetos e o Banco da Amazônia, BASA, com a finalidade de liberar recursos financeiros às empresas interessadas. (SANTOS, 2008, p. 23).
Entre outros objetivos, o programa procurava assegurar a exportação de minério de ferro barato pra a então Comunidade Européia por 15 anos, satisfazendo cerca de metade da demanda da CE, ou 13,6 milhões de toneladas de minério de ferro por ano ... (SUTTON, 1994, p. 63).

Ainda que tenha se responsabilizado por 75% dos investimentos do PGC na Amazônia, o governo brasileiro não foi um planejador autônomo desse processo, entre outras ações, seguiu diretrizes de estudos realizados por japoneses na região de Carajás. Dentre as atribuições do Estado, duas funções ganham destaque: fornecer infra-estrutura e mão-de-obra, e fornecer incentivos tributários e financeiros. Para coordenar as instituições nacionais responsáveis pela realização da parte material e social, foi criado o Conselho Interministerial.
Esse Conselho interministerial foi formado em 1980, por um Decreto-Lei (85.387) composto por oito membros: o Ministro da Secretaria de Planejamento da Presidência da República; o Ministro das Minas e Energia; o Ministro dos Transportes; Indústria e Comércio; Ministro da Fazenda; Interior; Agricultura; e Ministro do Trabalho. (KOWARICK, 1995, p. 65).
O custeio da infra-estrutura foi bancado pela Companhia Vale do Rio Doce - CVRD, mas os benefícios foram fracionados com empresas estrangeiras. Seus objetivos gerais seriam desenvolver o crescimento industrial; a siderurgia e, especialmente, a exploração mineral; ocupar o que se denominou de “espaços vazios”, e substituir a economia tradicional camponesa e indígena por uma economia de mercado; gerar riqueza, emprego e renda para tirar o país da crise e a pagar a dívida externa; descentralizar a economia nacional.

A CRIAÇÃO DA SELMAR EM IMPERATRIZ

Como já se mencionou anteriormente, o PGC abarcou diversos subprojetos diferentes e não apenas no âmbito da extração do minério, sui genericamente. Esses projetos menores foram favorecidos pelo suporte material montado para o projeto matricial. Nessa diversidade surgiu o pólo guseiro, madeireiro, agropecuário e florestal, com grandes plantações de eucalipto pela região (FRANKLIN, 2008, p. 185).
A Celmar, empresa de celulose e papel foi implantada na cidade de Imperatriz, fronteira com o estado do Tocantins. Chegou à cidade em 1992 com um projeto “novo” de plantio de eucalipto para a região. Essa tentativa econômica tendo o eucalipto como produto-base foi elaborado ainda no início da década de 1970, quando o governo Médici patrocinou um gigantesco plantio de eucalipto e pinheiro com o propósito de atrair fábricas de celulose para a região da Amazônia.
O governo concedeu dezenas de milhões de dólares em incentivos fiscais às empresas, embora elas nunca fossem montadas. Em meados da década de 1980 esses plantios foram remanejados para a produção de carvão, com o objetivo de atender as necessidades da produção industrial do ferro gusa.
Na região de Imperatriz a produção do carvão marca vigorosamente a economia e as relações sociais, especialmente em nível tradicional ou familiar. Na cidade de Açailândia, em meados da década de 1990, a produção do ferro gusa atingiu um preço equivalente a metade do valor da mesma produção no estado de Minas Gerais. Isso é um elemento importante para se perceber o quão incentivado foi a produção dessa matéria-prima energética.
A partir disso, novas plantações de eucalipto surgiram, significativas quantidades de florestas nativas passaram, mais intensivamente, a ser queimadas para atender as necessidades das indústrias de ferro gusa. Para se ter mais clareza em relação a esse fato, mais de 80% do carvão utilizado na siderurgia brasileira, nessa época, era extraído de florestas nativas.
Na região tocantina as empresas de ferro gusa recorrem a três formas básicas de aquisição do carvão para seus fornos: aproveitamento de resíduos de serrarias; fabricação do carvão a partir das matas primárias e secundárias; e extração de matéria-prima de suas plantações de eucaliptos.
Em Açailândia, a setenta quilômetros de Imperatriz, as empresas contam com grande quantidade de carvão de serrarias, tendo em vista que essa região, juntamente com o estado do Pará, próximo à fronteira com o Maranhão, possuem um elevado número de serrarias, o que prefixa fortemente a economia regional e as relações sociais pautadas no trabalho.
Na região de Imperatriz as plantações de eucalipto contribuiram perceptivelmente para marcar um conjunto de mudanças sociais e econômicas. Ainda que a fábrica de celulose prevista pela Celmar nunca tenha se concretizado, ela contribuiu para alterar, em parte, a fisionomia social do lugar, em especial, por conta de concentração de terras.
Os governos, desde cedo, se mostraram interessados em trazer empresas de celulose para a Amazônia oriental, apesar de esse empreendimento, quando implantado sem um rigoroso acompanhamento ambiental, seja altamente prejudicial ao meio ambiente, pois libera grandes quantidades de resíduos industriais na natureza e provoca graves danos ao meio ambiente e ao homem, pelo uso de agrotóxicos. Sem mencionar as perdas na fauna e na flora pela predominância da monocultura do eucalipto. A partir de 1980 foi criado o Programa Pólos Florestais que objetivou realizar um zoneamento ecológico para o reflorestamento da área localizada à margem da Estrada de Ferro Carajás. Nesse zoneamento já se identificava algumas áreas propícias ao plantio do eucalipto.
Esse empreendimento surge em Imperatriz num contexto bastante favorável à sua implantação na região tocantina. Favorecida com infra-estrutura, capital financeiro, capital político e social, não só de mão-de-obra, mas também pelo fato de a sociedade  não apresentar oposição significativa à implantação de seu projeto, com previsão para um alto índice de concentração fundiária e degradação ambiental.
A SELMAR encontra, portanto, na região tocantina o cenário ideal à sua definitiva implantação... existência de extensas áreas degradadas, adequadas à implantação do reflorestamento com eucalipto; pesquisas florestais com eucalipto na região, realizada pela CVRD...; abundância de água (Rio Tocantins); de energia (hidrelétrica de Tucuruí, no Pará); disponibilidade de mão-de-obra barata; de serviços; transportes rodoviários e ferroviários. (CONCEIÇÃO, 1995, p. 144).
 
Essa empresa foi composta por um grupo de empresários brasileiros e estrangeiros. Em 1992 foi legalmente criada em Imperatriz, com a composição de três sócios: a empresa Risipar S.A, com 55% das ações; a Vale, com 30%; e uma empresa japonesa chamada Nissho Iwai Corporation, com 15% do capital financeiro. (Idem, 1995, p. 137).
Meses depois, no final do ano, alguns fatos mudaram na composição da empresa, quando a Vale passou a deter 42,5% do investimento total na empresa de celulose, e a que era maior acionista, a Risipar, caiu de 55% das ações para também 42,5%, enquanto a empresa japonesa permaneceu com seu percentual inicial.
Essas mudanças significaram uma redução nos gastos financeiros do empreendimento, um exemplo primeiro se deu com a redução do plantio de eucalipto de 80 mil hectares para 65 mil hectares, previsto para o segundo ano posterior a sua criação. O valor previsto para investimento foi de quase um bilhão de dólares, a serem empregados num prazo alargado em nove anos. 60% desse investimento não sairiam dos recursos da própria empresa, mas de instituições financeiras estrangeiras e nacionais.
Em terras para o plantio de eucalipto a empresa comprou, de fazendeiros e donos de pequenas propriedades, mais de 365 mil hectares. Alguns proprietários venderam pelo interesse no dinheiro para investimento em outros setores; outra parte dos pequenos proprietários se sentiu pressionada a vender, uma vez que suas áreas estavam cercadas por florestas de eucaliptos. Sem fauna, sem flora e sem vizinhos, a vida sociocultural desse pequeno proprietário torna-se vazia de sentido, no momento que ele perde o convívio social e a troca de experiências culturais com outras famílias.
Tudo caminhava para a consolidação da empresa na região, pois além das condições jurídicas, políticas, materiais e financeiras superadas, havia um aparente interesse dos grupos empresariais envolvidos, mesmo assim, no ano de 1997, houve alterações nesse percurso de investimento, por meio de redefinições operacionais. O nome da empresa mudou para Ferro Gusa Carajás, e mudou consigo sua postura, no sentido de manter apenas as plantações de eucaliptos e a compra do carvão para atender as siderúrgicas de Carajás.

CONSEQUÊNCIAS  SOCIOAMBIENTAIS  DO PGC

Quando se olha para um projeto nas dimensões do PGC é difícil não reconhecer a série de benefícios econômicos e sociais que ele trouxe para a Amazônia e para o próprio país. A infra-estrutura é um dos pontos de maior destaque; as rodovias, desde sua implantação tiveram intensa participação na vida de muitas pessoas que precisavam se deslocar pelo território amazônico e nacional; a ferrovia, também contribuiu para o deslocamento de pessoas e, principalmente minérios e outras mercadorias, em nível regional; os portos com a finalidade de interligar o Brasil ao resto do mundo, também trazem contribuição notável ao país. O PIB aumentou, com uma conseqüente geração de renda a milhares de pessoas. Para se ter uma idéia mais apurada, pode-se verificar algumas informações a respeito do volume financeiro que a empresa Companhia Vale do Rio Doce movimenta:
Dados recolhidos junto à empresa atestam que a Cia Vale do rio Doce pagou aos cofres públicos paraenses 67 milhões de dólares somente em tributos estaduais e municipais, o que representa 20% da receita tributária do estado... já na atualidade a Companhia repassa 8% do seu lucro líquido aos municípios onde exerce atividades... (GOMES, 1996, 25).

São investimentos significativos, especialmente tratando-se de regiões da Amazônia oriental, nas quais investimentos por meio de políticas públicas, voltadas para à sociedade são rarefeitos, quando não inexistentes. Ações como estas significam a quase totalidade em muitos municípios situados nos estados do Pará e Maranhão.
Por outro lado, reconhecer apenas os benefícios sem olhar os prejuízos causados a muitas pessoas e grupos sociais, empobrece a análise do que é o Projeto Grande Carajás, pois não se deve esquecer que o alvo central foi o benefício à a macro-economia, a ser realizado por meio da CVRD, na época pública, e de empresas estrangeiras que participaram do projeto.
O primeiro problema a considerar é a concepção social que norteou o projeto, com base numa lógica a incorporar grupos sociais capazes de oferecer respostas econômicas de imediato, a exemplo dos trabalhadores que serviram na construção da infra-estrutura das BR’s e da hidrelétrica, por exemplo. Nesse sentido, estão excluídos os indígenas e muitos camponeses que não se adequaram ao projeto, por seu habitus camponês, relacionado ao trabalho e ao modo de vida tradicionais. Por habitus entende-se a definição de Bourdieu:
O habitus seria um conjunto de esquemas implantados desde a primeira educação familiar, e constantemente repostos e reatualizados ao longo da trajetória social restante, que demarcam os limites à consciência possível de ser mobilizada pelos grupos. (MICELI, in BOURDIEU, 2005, p. XLII).  
Essa disposição diante do mundo social, ou essa cultura camponesa foi um entrave para esses projetos na Amazônia, pois os excluídos do processo são muitos, e isso provoca diversos problemas de ordem cultural, social, econômica e política. As terras naquele momento, especialmente os latifúndios, estavam mais “seguras e aproveitáveis” com fazendeiros e empresas que pudessem aproveitar “racionalmente” em projetos “produtivos”, com plantios de eucaliptos e produção de carvão, capazes de oferecer suporte às indústrias de ferro gusa, no aproveitamento dos “espaços vazios”.
Com base nisso pode-se reafirmar que o PGC teve, e ainda tem, por objetivo atender necessidades e interesses relacionados ao campo macro da economia e da sociedade, no sentido de buscar suprir problemas referentes a crise sociopolítica. Por conseguinte, as particularidades locais não estiveram entre as preocupações do programa, da mesma forma que os danos causados à natureza nunca chegou a ser uma preocupação a ponto de, efetivamente, provocar uma mudança comportamental para alterar seu roteiro de ações, ainda que haja a efetivação de alguns projetos ambientais.
Um professor do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, INPA, Philip Fernside, apontou, por meio de estudos, que para produzir 2,8 milhões de toneladas de ferro gusa por ano, as indústrias necessitariam de 2,3 milhões de toneladas anuais de carvão, o que provoca um corte de mil quilômetros quadrados de floresta amazônica. (SUTTON, 1994, p. 64). Além desse estudo apresentado, outros apontaram para níveis de destruição ainda maiores. Essa devastação em macro-escala foi provocada não apenas pelas imensas plantações de eucaliptos para a produção de carvão, mas por atividades madeireiras e projetos pecuários interligados ao grande projeto.
Os desmatamentos provocaram, no decorrer do tempo, anomalias no comportamento de rios e riachos, secando muitos deles; numa reação em cadeia, a flora natural também sofreu muitas transformações, juntamente com as espécies animais, insetos e peixes; o subsolo, igualmente, sofreu interferências com a presença de produtos químicos e metais pesados. No conjunto, o resultado da ação das indústrias provocou, assoreamento e poluição de rios, assim como a própria atmosfera, pela emissão de gases nocivos.
A região tocantina, especialmente a cidade de Imperatriz e suas proximidades, apresenta-se como um locus resultante desse processo de degradação do meio ambiente e das alterações nas mudanças sociais ocorridas no interior dos grupos excluídos do processo, por não se adequarem à lógica do PGC.
Atualmente o município de Açailândia, possui algumas siderúrgicas, e sofre por causa da poluição urbana provocada pela emissão de gazes na atmosfera. Como conseqüência, há um alto índice de doenças respiratórias entre a população, especialmente crianças e idosos. Alguns grupos prejudicados têm buscado pressionar os poderes públicos e alertar o restante da população contra as indústrias. Somando-se a isso, o IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, da cidade não acompanha o PIB.
Em Imperatriz, muitos problemas estão relacionados à chegada da Celmar, pois para executar seu empreendimento interrompido, deixou visíveis interferências na vida de grande parte da população, especialmente nos grupos camponeses e quebradeiras de coco babaçu. A empresa foi responsável por um plantio de milhares de hectares de eucaliptos na região. Isso implica afirmar que a significativa concentração de monocultura contribuiu para subverter uma paisagem diversificada de plantas e animais nativos. Da mesma forma, com o reforço da concentração fundiária, subverteu-se relações sociais pautadas em trabalho familiar e comunitário, com a imposição de valores centrados em relações econômicas.
A produção de carvão comercial em Imperatriz intensificou, nos últimos anos, os problemas relacionados ao meio ambiente. Além disso, provocou mudanças no interior de grupos tradicionais que vêm, sofrendo readequações. Camponeses e quebradeiras de coco que antes trabalhavam de forma mais livre, por falta de terra e renda, sentem-se pressionados ou motivados a se dedicarem em atividades relacionadas à produção do carvão.
Essa produção tem contribuído expressivamente para mudanças no habitus de trabalho camponês e extrativista. O que se extraía da roça e dos cocais era suficiente, em termos relativos, para manter a sobrevivência da família; a renda do carvão, por si só, não tem apresentado os mesmos resultados. Dentro as mudanças ocorridas com essa nova dinâmica, pode-se citar a drástica redução da produção local de arroz que vem ocorrendo nos últimos anos, alterando o comportamento do mercado local e o próprio hábito alimentar, com crescente substituição de produtos agrícolas naturais por produtos industrializados. 
As quebradeiras de coco babaçu são outra categoria social que sofreram mudanças em suas relações sociais e de trabalho. A devastação dos babaçuais, intensificada nos últimos anos, e as vantagens financeiras oferecidas com a venda do carvão do coco, tem contribuído para o encolhimento da prática tradicional da quebra do babaçu, em detrimento da venda do material energético.
Essa mudança provoca uma importante quebra na cadeia cultural do trabalho extrativista. O ato de as quebradeiras trabalharem coletivamente, produzirem uma variedade de produtos do babaçu como remédios, alimentos, artesanato, vem sendo substituída por um novo habitus que se realiza no benefício meramente econômico e individual. Essa prática quebra a tradicional cadeia de trabalho que relaciona alimentação e renda, mas também ensinamentos, vivências, arte e harmonia socioambiental.
Ainda que a venda do carvão vegetal a partir do babaçu proporcione vantagens, num primeiro momento, ela traz implicações, pois substituir os produtos extraídos do coco por produtos adquiridos no mercado de produtos industrializados torna-se, muitas vezes, desfavorável, em relação aos custo e a qualidade alimentar. Uma forma de tentar equilibrar essa relação seria adquirir renda a partir da venda do carvão, sem perder por completo as práticas socioculturais extrativistas que a várias gerações vem sendo conservadas.
Essas são algumas das mudanças ocorridas na região, a partir de mudanças nas relações de trabalho. De modo geral pode-se constatar alguns desfavorecimentos no quadro social do Maranhão, provocados por mudanças ocorridas no contexto do PGC. Do início da década de 1980 ao momento presente, o estado consolidou índices sociais e econômicos desfavoráveis, comparado ao restante do país. Atualmente é um dos estados mais pobres da federação, com sua série de conseqüências sociais (Franklin, 2008, p. 187).
Portanto, com base nas implicações apontadas no decorrer do texto, pode-se demonstrar outros aspectos desfavoráveis do projeto que podem ser sintetizados da seguinte forma: “perda de poder de decisão sobre extensas áreas do território nacional; influência de grandes empresas sobre a economia brasileira; perda de oportunidades de criar um desenvolvimento local...” (SANTOS, 2008, p. 31). 
Pela cultura política brasileira, os grandes projetos costumam ser pensados e executados por grupos situados fora da esfera popular. O interesse do Estado coloca-se, muitas vezes, acima do interesse de seus habitantes e caminha em direção ao campo econômico em nível macro. Entretanto, “As diferentes classes e frações de classes estão envolvidas numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social, mas conforme os seus interesses” (BOURDIEU, 2005, p. 11).
Nessa ação os grupos marginalizados procuram encontrar seu espaço e buscar satisfazer os interesses inerentes a seu campo; entram na engrenagem da macro-dinâmica, interagindo com ela, justificando ou negando, dependendo de onde se encontram, no contexto social. Numa soma de várias interferências, o todo não é mais o mesmo, talvez por isso o Projeto Grande Carajás não conseguiu sustentar-se tal como pretendeu. O Estado e as próprias  empresas perderam, ao desconsiderarem uma parte importante da sociedade.
 
 
NOTAS
1.  Mestrando pela Universidade Federal do Goiás – UFG e Bolsista pela Fundação de Aparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão – FAPEMA.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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_________________.  Economia das Trocas. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.

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SANTOS, Raimundo Lima dos. O projeto Grande Carajás - PGC e algumas consequencias regionais. Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 5, Nº07, Rio, 2010 [ISSN 1981-3384]
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Warning: fopen(/var/www/tempopresente/site/plugins/system/advancedmodules/images/data/ML_lcode.php) [function.fopen]: failed to open stream: File too large in /var/www/tempopresente/site/plugins/system/advancedmodules/images/index.php on line 110

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Warning: include_once(/var/www/tempopresente/site/plugins/system/advancedmodules/images/data/ML_lcode.php) [function.include-once]: failed to open stream: File too large in /var/www/tempopresente/site/plugins/system/advancedmodules/images/index.php on line 40

Warning: include_once() [function.include]: Failed opening '/var/www/tempopresente/site/plugins/system/advancedmodules/images/data/ML_lcode.php' for inclusion (include_path='.:/usr/share/pear') in /var/www/tempopresente/site/plugins/system/advancedmodules/images/index.php on line 40