terça, 02 de setembro de 2014 - 10:56h

5696Revista Eletrônica Boletim do Tempo - Estudos de Defesa e Política Internacional

ISSN
1981 - 3384
ANO 6
n 19, RIO, 2011
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Revolução Mexicana e o tempo histórico da Modernidade - ‘Horizonte de expectativas’ na Constituição de 1917

por: Edmar Victor Rodrigues Santos

Este artigo é fruto de uma pesquisa, ora em curso, que pretende analisar a construção do novo pacto político no México que, após a irrupção revolucionária em 1910, promulga uma nova Constituição em 1917. O processo será estudado tendo à luz reflexões teóricas acerca da Modernidade e seus impactos na forma a qual os homens experimentam o tempo na sua existência e organização em sociedade. A hipótese central é de que a Constituição de 1917 encarna a pressão das expectativas revolucionárias forçando ao regime subseqüente buscar sua legitimidade na realização da mesma.

Palavras-chave: Modernidade, México, Constituição de 1917.



 

Abstract: This article is the result of a research, still in course, that intends to analyze the construction of the new political pact in Mexico which, after the revolutionary irruption in 1910, enacts a new Constitution in 1917.  The process will be studied under the light of theoretical reflections about Modernity and its impacts on the way men experience time in their existence and organize themselves in society. The main hypothesis is that the 1917’s Constitution incarnates the pressure of the revolutionary expectative, forcing the sequent regime to establish its legitimacy foundation in the accomplishment of it.

Keywords: Modernity, Mexico, 1917’s Constitution.

Introdução

Um grande poeta mexicano ousou dizer, em 1950, que a Revolução iniciada em 1910 foi a própria revelação do “ser” de sua nação (PAZ, 2006, p. 123). Se, pelo menos desde Martin Heidegger, compreendemos o “ser” não como “substância essencial”, mas “aquilo que se acha diante de nós” (GADAMER, 2009, pp. 28-29), talvez possamos concordar com o poeta.
O México que se tinha diante de si naquela época era o México moderno e pujante que vivia o chamado ‘milagre econômico’. Já no campo político, a dinâmica era bem diferente. Em 1950, estava para se encerrar o mandato de Miguel Alemán, o sexto presidente de uma genealogia partidária iniciada em 1929 e um dos principais responsáveis pela configuração final do partido do governo sob a – confusa – sigla de Partido Revolucionário Institucional (PRI).
O que esse artigo se propõe é abordar os momentos iniciais da configuração do novo pacto político mexicano a partir de reflexões teóricas sobre a natureza da Modernidade enquanto uma forma de experimentação temporal específica e sobre os seus desdobramentos nas ações dos homens sobre as suas realidades históricas – mais especificamente, sobre as formas de ação política e de encarar a legitimidade do poder.
Primeiramente, farei algumas considerações de fundo mais propriamente teórico sobre a Modernidade tal qual manifestada no espaço-tempo abordado, pois acredito ser fundamental apresentar as reflexões que conduzem – e mesmo permitem – o estabelecimento das hipóteses que norteiam o esforço dessa abordagem. Na seqüência, serão tecidas algumas breves pontuações acerca do início do processo revolucionário mexicano para, em seguida, atingir o pretendido elemento central deste estudo: a Constituição de 1917. Enquanto elemento fundante do novo agir político mexicano, coloca-se, ao mesmo tempo, documento normativo da República e símbolo de uma enorme carga de expectativas revolucionárias, que terão a força de pressionar os projetos políticos subseqüentes para a sua realização plena.

A experiência da Modernidade no México: legitimidade e heterogeneidade.

O termo Modernidade, por si, já é bastante complexo, dotado de grande polissemia, e já foi alvo de vários debates nos mais diversos campos do conhecimento. Está muitíssimo além dos limites desse artigo revisitar toda a riqueza de significados que já assumiu ou assume o ‘moderno’ ao longo da história.
Então, a que se pretende referir aqui, afinal, por Modernidade?  Muitos autores indicaram caminhos e chaves de leitura pelos quais encarar esse problema, o que implica um trabalhoso exercício de recortes movido, fundamentalmente, pelas afinidades e objetivos dessa pesquisa.
Sumariamente, procuro trabalhar Modernidade como referência a um tempo histórico, conceito apropriado a partir das leituras da obra do historiador alemão Reinhart Koselleck (2006). Trata-se de um recorte heurístico que pretende compreender a experiência dos homens no tempo, seu sentir-se e agir sobre o seu momento histórico em sentido amplo; “um tipo de experiência vital – experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida (...)” conforme aludiu Marshall Berman (2007, p. 24).
O que se pretende aqui dizer é que existem disposições históricas múltiplas que fazem derivar nos homens uma forma específica de experimentar e organizar a sua existência temporal e isso impacta, profundamente, na forma como eles se organizam em sociedade, constroem as suas expectativas para o futuro, sofrem a influência das suas tradições e – o que toca mais especialmente esse trabalho – estruturam e referendam os regimes políticos que lhes são coetâneos. Ao longo da história essa forma de experimentar o tempo foi se modificando, de forma que, a despeito da “época” ou tempo cronológico, existem regimes de historicidade 1, dotados de um tempo histórico específico.
Estabelecido esse marco central, colocam-se duas questões fundamentais relacionadas: sendo a Modernidade um tempo histórico específico, o que a precipita sobre uma determinada realidade, promovendo uma ruptura com o tempo histórico então vigente? E ainda, o que ela acarreta para as formas de organização política e os mecanismos pelos quais se busca a sua legitimidade?
Quanto ao primeiro ponto, Koselleck nos oferece algumas conclusões a partir de seus estudos. Esses estão centrados no contexto da Europa ocidental e, para ele, o advento da Modernidade se deu, lá, na virada do século XVIII para o XIX quando a Revolução Industrial colocou novos parâmetros e possibilidades para a ciência e a técnica, enquanto a Revolução Francesa fez algo similar para as estruturas sociais e políticas então existentes (KOSELLECK, 2006, p. 320-321): a “dupla revolução” (HOBSBAWN, 2007, p. 13) acarretou uma profunda transformação de consciência, dando aos homens uma percepção da história na qual eles seriam agentes fundamentalmente transformadores e capazes de melhorar o seu futuro. A busca do bem-estar, antes apostada no mundo espiritual, foi secularizada; o espaço de experiências do passado consagrou-se como algo ruim ou, no mínimo, insuficiente para responder aos novos desafios; e o horizonte de expectativas do futuro revestiu-se do otimismo daqueles que acreditam poder moldá-lo às suas próprias ambições e desejos 2.   
O segundo ponto segue a mesma linha de reflexão. Quando o passado perdeu seu caráter de exemplaridade, e o presente algo a ser superado, não é difícil vislumbrar que, diante dessa nova perspectiva sobre o tempo e a história, a legitimidade de uma ação política se deslocou para o futuro. A partir de então (e em tendência crescente ao passar dos anos), não é mais o exemplo dos antepassados que informa as normas de conduta política. Será no traçado de um projeto transformador e nas suas capacidades de realização (reais ou emuladas) que aqueles que procuram conquistar e/ou manter o poder do Estado passarão a fundamentar parte considerável da legitimidade de suas ações, tornando cada vez mais insustentáveis discursos e estratégias referendadas pelo espaço de experiências e dando protagonismo político ao horizonte de expectativas.
Todavia, a apropriação que faço de Koselleck não considera que esses desdobramentos se manifestam uniformemente sobre todas as realidades. Apesar dos valores e idéias circularem amplamente, a sua manifestação sobre os contextos históricos obedece a idiossincrasias próprias de cada locus. Este trabalho se debruça sobre o México no século XX, que também irá experimentar a Modernidade, porém diferentemente do ocorrido na Europa, tanto cronológica quanto qualitativamente.  Sob os termos acima apontados, creio que a Modernidade naquele país só irá emergir de forma mais cabal a partir da sua grande revolução sucedida em inícios do século XX. Este foi o evento, por excelência, que precipitou as expectativas dos mexicanos sobre sua ação na história. Por diversas características próprias do conflito e de seus desdobramentos – como o alto índice de mobilização de todos os setores da sociedade, os altos custos humanos e financeiros, e a emergência de novos projetos políticos, sustentados por novos grupos elevados a posições de poder –, podemos enxergar a Revolução Mexicana como o acontecimento que consagra, no México, o surgimento de um tempo histórico distinto.
Nessa linha, considerando a não-sincronia exata entre a Modernidade européia e a latino-americana, o argentino Néstor García Canclini nos oferece, a partir de Perry Anderson, a interessante noção de heterogeneidade multitemporal (GARCÍA CANCLINI, 2008, p. 74), que caracterizaria a complexa experiência da Modernidade na América Latina, expressa na tensão entre modernismo e modernização, segundo o autor.
García Canclini pontua a existência, a partir da década de 1920, de fortes discursos de artistas e intelectuais modernistas sem que tivesse havido, aqui, profundas transformações estruturais – de cunho modernizante – que os mobilizassem. Nesse sentido, o discurso modernista latino-americano se constrói com muitas influências externas, forjando uma complexa conjuntura em que persistem amarras estruturais, ao mesmo tempo em que demandas pela superação destas estão colocadas em um grandiloqüente e combativo afã de transformação. Em meio a essas tendências justapostas, há a construção de um discurso que pretenda dar inteligibilidade a essa coexistência de temporalidades históricas distintas – presente negativo versus futuro de realizações redentoras –, expressas no campo material e simbólico (Idem, 73).
Esse esforço discursivo e reflexivo implica sobre o agir político, de forma que aqueles que estão buscando, em matrizes diversas, valores de uma transformação que não foi operada em seu próprio meio, buscam favorecer no seu contexto – entendido de antemão como atrasado – o acontecimento dessas transformações vislumbradas. Seria o que Renato Ortiz coloca como a vontade de modernidade 3.
Ortiz, ao estudar o caso da sociedade brasileira, pretendeu compreender como se operou o modernismo cultural que emergiu nos anos 20 em conjunto com a não-modernidade estrutural da sociedade. Ele diz:

Ao Brasil real, contemporâneo, os modernistas contrapõem uma aspiração, uma “fantasia” que aponta para a modernização da sociedade como um todo. [...] Estabelece-se, dessa maneira, uma ponte entre uma vontade de modernidade e a construção da identidade nacional. O Modernismo é uma idéia fora do lugar que se expressa como projeto. (ORTIZ, 1991, p. 34-35) [grifo meu]

Ou seja, a descontinuidade entre a vontade de modernidade e a efetiva transformação modernizadora se torna inteligível na medida em que a primeira se expressa como um projeto de realização da segunda, manifestando-se assim nas políticas de Estado – muitas vezes pela ação direta dos intelectuais forjadores do discurso modernista trabalhando como burocratas.
O caso do México contemporâneo é paradigmático dessa tendência na qual pressões de expectativas de transformação concebida por alguns setores da sociedade são incorporadas pelo poder público, como nos faz ver Jesús Martín-Barbero (MARTÍN-BARBERO, 2008, p. 219-224). O Estado capitaneou iniciativas que promoviam a modernização do país nas mais diversas searas, e “esse protagonismo foi tão forte que converteu o Estado no ‘agente hegemônico por excelência’ [da modernização]” (Idem, p. 223).
Todavia, o importante a se destacar é que, como influência e impulso de projeto transformador, o modernismo foi uma face da Modernidade enquanto uma experiência vital bem mais ampla, que aposta no horizonte de expectativas para ordenação da ação do homem na sua sociedade, constituindo-se, assim, como referência da ação política e fonte de legitimidade da mesma.

A guerra civil e a irrupção violenta das expectativas

Em 1910, ao centenário de sua independência, o México tinha o ar de um país velho, no qual reinava o sentimento de frustração das demandas e expectativas entre os mais diversos estratos da população. As cidades e os centros de produção se massificavam 4, porém o Estado e as empresas não estavam preparados ou dispostos a garantir o bem-estar do grande fluxo de pessoas que para lá convergiam; pelo contrário. O exército federal foi freqüentemente mobilizado para controlar as agitações da época (KATZ, 2002, pp. 89-90), no momento em que a expansão dos negócios foi perdendo força. Os confrontos deixavam um grande saldo de violência, como nos casos emblemáticos das greves de Río Blanco 5 e Cananea 6.
A faísca necessária para explodir o “barril de pólvora” que se preparara veio quando o presidente Porfírio Díaz, no poder desde 1876, decide concorrer a mais um pleito. O início da guerra civil é marcado por grande heterogeneidade, com diversos grupos – das orientações e ambições mais distintas – pegando em armas para defender suas próprias demandas, formando-se quase sempre com um grande líder como seu centro de gravidade. Nesse sentido, quatro nomes serão fundamentais no decorrer dos eventos: Emiliano Zapata, Francisco “Pancho” Villa, Venustiano Carranza e Álvaro Obregón. Os dois primeiros, de bases mais populares, entraram na luta logo no início da guerra; já Carranza e Obregón só vão adquirir real protagonismo após o golpe promovido pelo Gal. Victoriano Huerta em inícios de 1913 7.    
É somente após a derrubada de Huerta em Julho de 1914, que, finalmente, os desdobramentos da Revolução encaminham, de forma um pouco mais clara, a configuração da nova ordem no México. A grande coalizão revolucionária formada – que agregava os quatro líderes supracitados – parte-se por iniciativa de Carranza que não admitiu não ter sido nomeado pela Convenção revolucionária 8 como presidente. Acompanhado por Obregón, que já havia se demonstrado um grande líder militar, fogem para o porto de Veracruz e iniciam uma nova ofensiva contra o grupo capitaneado por Villa e Zapata.
Esse racha produziu dois grandes grupos em conflito: as chamadas forças “constitucionalistas”, em alusão à alcunha do exército que combateu Huerta, e que reconhecia a liderança política de Carranza, apesar de dever sua força em batalha principalmente a Obregón; do outro lado, havia as forças “convencionistas”, remanescentes da Convenção Revolucionária, presididas por Eulálio Gutiérrez, mas que tinha como seus verdadeiros detentores do poder Villa e Zapata.
Nos diversos confrontos que se seguiram pesou como uma das características mais importantes a coesão interna dos dois grupos e a sua concepção acerca do país e da luta. As forças convencionistas eram extremamente heterogêneas e faltava-lhes um sentido de Estado que Carranza, pela sua própria formação política tradicional, possuía – e isso podia se depreender das próprias falas de Zapata e Villa 9.  Como disseram Aguilar Camín e Meyer,

Para Villa, o país terminava onde começava a correr perigo sua extensíssima linha de suprimento ligada à fronteira [...]. Para Zapata, o mundo terminava onde a organização popular de seu exército perdesse as raízes peculiarmente agrárias e militares que o caracterizavam. [...]
Para Carranza, o país era uma totalidade conceitual, política e administrativa da qual ele acreditava ser o único representante legítimo, sem lhe importar no momento o quanto desse território controlava. (AGUILAR CAMÍN & MEYER, 2000, p. 79)

Por essas próprias limitações de concepção, os convencionistas não promoviam ofensivas constantes em territórios estrategicamente fundamentais, dando ao exército constitucionalista o tempo que precisava pra se organizar e promover algumas reformas no seu programa para atrair novas bases.  Isso se aliava ao controle que estes detinham de regiões estratégicas como Veracruz – principal porto do México e região de vastos campos petrolíferos – e ao gênio militar de Obregón que prevaleceu nas intensas batalhas contra as imensas forças villistas. Se no fim do ano de 1914, o país estava majoritariamente sob controle dos convencionistas, no final de 1916, Villa e Zapata tinham sido acuados para focos locais de onde começaram e apesar de continuarem a luta de forma aguerrida, não mais representavam um grande desafio para a hegemonia político-militar estabelecida pelos seus adversários.
Graças ao controle e supremacia militar estabelecido, Carranza decide por convocar, nesse mesmo ano, as eleições para um Congresso Constituinte, cuja única condição para ingressar é a de ter permanecido leal a sua autoridade.

Pressão das expectativas revolucionárias e a Constituição de 1917

[A Constituição de 1917] foi não apenas uma Constituição política, mas também uma Constituição social que gravou na perspectiva do novo Estado as realidades estruturais que a violência havia tirado dos porões do porfiriato. (AGUILAR CAMÍN & MEYER, 2000, p. 86.)

O momento de formulação da nova Constituição é bastante especial para o diagnóstico dos interesses em jogo naquela ocasião e da sensibilidade dos diversos grupos aos significados de uma “catártica guerra civil” (AGUILAR CAMÍN, 1994, p. 11). Carranza já era um político experiente quando a Revolução explodiu. A sua proposta de Constituição em praticamente nada diferia da que estava em vigor desde 1857 10, com a exceção de conferir maior poder ao Executivo. Contudo, não só de políticos tradicionais estava feito o Congresso Constituinte. A guerra elevou muitos “homens novos” à cena principal da política. Em geral, eram pequenos proprietários, comerciantes, que possuíam uma relação mais direta com trabalhadores dos campos e das minas e que, com a Revolução, começaram a se destacar como líderes militares elevando, dessa forma, seu prestígio político – os mais proeminentes exemplos foram Álvaro Obregón, assim como seu aliado, general e sucessor na presidência da República, Plutarco Elías Calles.
Dentre esses novos atores políticos na Constituinte, destacaram-se os trabalhos da chamada ala jacobina que, apesar de ser difícil rastrear sua organização precisa, assim como o número de seus integrantes, fica muito bem marcada pelas fontes, na sua composição, a centralidade de nomes como Francisco J. Mújica  11 e Heriberto Jara. Pela importância dessa “ala” na inclusão dos principais artigos que respaldavam as expectativas transformadoras existentes no processo revolucionário, ela chegou a ser qualificada como a “virtual criadora da Constituição Mexicana de 1917” (AGUILAR CAMÍN & MEYER, 2000, p. 86), pois enquanto Carranza teria permanecido cego e surdo as demandas e expectativas dos milhares de homens destituídos que lutaram na Revolução, a ala jacobina “queria reconhecer também as pegadas ainda frescas das demandas sociais subjacentes à Guerra Civil (afinal, ainda havia 50 mil homens armados espalhados pela República)” (Ibidem). Seus integrantes qualificavam o momento da Constituinte como “solene” porque acreditavam que ali, finalmente, responderiam ao México, as expectativas que suscitaram a luta armada –intervenções de Jara 12 e Mújica 13 são extremamente sintomáticas disso.  
Após finalizado, o texto da Constituição de 1917 acabou por torná-la o grande símbolo do campo de expectativa social – conforme expressão de Koselleck  14– do processo revolucionário, para além de suas propriedades mais óbvias de código normativo máximo da nação. Nesse sentido, os seus termos transformadores “corporificaram” ideais longamente gestados no decurso da guerra, pressionando a todos aqueles que postulassem o poder, no México, em nome da “Revolução”.     
Apesar disso, Carranza não mostrava a menor inclinação em responder as expectativas revolucionárias que, depois de muita pressão da ala jacobina, passaram a incorporar a Carta Magna 15. Além do mais, o recrutamento da sua burocracia se deu fundamentalmente entre aqueles conservadores que defenderam o seu projeto na Constituinte: bacharéis e administradores que, assim como ele, exercerem algum cargo no regime pré-revolucionário a despeito de sua pouca afinidade ideológica. Com isso, ignorou em larga medida o prestígio dos “homens forjados pela revolução”, aqueles que viveram durante anos nos campos de batalha e não se viram recompensados, em alguma medida, pelo novo regime.
Diante da forma como Carranza conduziu seu governo, que muitos homens de grande peso político enxergavam como um retrocesso, Obregón decide lançar a sua candidatura à presidência no pleito de 1920. Contudo, e apesar de dever em muito o seu triunfo a ele, Carranza decide por um candidato civil. Seu prestígio, devido a sua atuação em batalha e sua sensibilidade as demandas sociais 16, já era inconteste.
Após lançar um manifesto denunciando todos os problemas do governo carrancista e anunciando a nocividade da decisão do presidente em insistir por outro candidato, fato que poderia dividir a nação mais uma vez, Obregón liderou um golpe de Estado (o último bem sucedido no país), ao qual aderiu a imensa maioria dos generais revolucionários, em um movimento chamado pelos carrancistas de “greve dos generais” (AGUILAR CAMÍN & MEYER, 2000, p. 94). E assim, “[n]a perigosa atmosfera política da restauração, Carranza deixou para trás a legitimidade de seu regime, o impulso que o levou ao triunfo na Guerra Civil e, finalmente, o poder e a vida. (AGUILAR CAMÍN & MEYER, 2000, p. 91).


Considerações Finais

No México, apesar da experiência moderna firmar o seu desdobramento por força dos eventos da Revolução Mexicana, ela só irá adquirir contornos mais claros com o desenrolar dos acontecimentos e dos governos modernistas. A captura e execução de Venustiano Carranza, talvez o último político de relevo com formação tradicional marcou, definitivamente, essa nova etapa da história mexicana.
Não foi meramente a vitória de um grande general sobre um burocrata. Com a chegada ao poder, Obregón impingiu um novo caráter ao Estado mexicano. Aos poucos, foram sendo criados projetos de alta envergadura para responder as expectativas e demandas da revolução como: o projeto educacional obrigatório, gratuito e laico disposto no artigo 3°; a consolidação da aliança que havia estabelecido com a Casa del Obrero Mundial (criando uma Secretaria do Trabalho e elevando os dirigentes operários a altos cargos na burocracia), dentre outros. Ao longo de seu mandato houve também intensa negociação com os generais, alimentando as suas ambições políticas e conseguindo formar um bloco majoritário que, por sua vez, excluiu muitos que ameaçavam a estabilidade alcançada. As bases para o crescimento econômico foram sendo estabelecidas através de projetos infra-estruturais e acordos internacionais que, por mais não fossem tão decisivos quanto a posterior expropriação das riquezas do subsolo em mãos de estrangeiros, encaminhava as negociações e revertia um maior fluxo de lucros para o Estado. O apetite das expectativas ainda era, de fato, demasiado grande para a capacidade de o novo regime atendê-las, como mostrará, principalmente, a rebelião de Adolfo de la Huerta que evoca os próprios artigos constitucionais para enfrentar o governo 17.  
Contudo, o regime não ignorou os imperativos transformadores colocados pela Constituição revolucionária, reconhecendo que era exatamente a sua capacidade de responder a eles era o que lhe garantia a legitimidade de governo. Esta será o documento que lançará o campo de expectativa social e o projeto rumo a modernização após uma lenta gestação nos anos de guerra em que o movimento revolucionário (aquele que obterá seqüência na dinâmica política) acaba se definindo, primeiro com a vitória das forças constitucionalista, e em seguida, com o prevalecimento dos atores que deram lugar ao horizonte de expectativas aberto a ferro e fogo pela luta.
O governo de Obregón será o momento inaugural da transformação do pacto político mexicano, que através de acordos com os diversos setores posiciona o Estado como agente fundamental e garantidor dos interesses pelas transformações, ao mesmo tempo em que funda a legitimidade do próprio regime nessa capacidade de responder ao horizonte de expectativas precipitado sobre a sociedade.

 

Notas

1. Regime de historicidade é um conceito do historiador francês François Hartog que se fez mais corrente entre o público brasileiro a partir do seu artigo Time, History and the Writimg of History: the Order of Time. Disponível em: .  Nesse artigo, no qual o autor faz referência à obra de Koselleck, nos é dada uma boa definição/justificativa para o uso do conceito aludido acima.
"Esta noção [regime de historicidade] que estou propondo aqui difere da de época. Época significa, no meu entender, apenas um corte no tempo linear [...]. Por regime, quero significar algo mais ativo. Entendidos como uma expressão da experiência temporal, regimes não marcam meramente o tempo de forma neutra, mas antes organizam o passado como uma seqüência de estruturas. Trata-se de um enquadramento acadêmico da experiência (Erfarung) do tempo, que, em contrapartida, conforma nossos modos de discorrer acerca de e de vivenciar nosso próprio tempo.” [Grifo meu] (HARTOG, 1996, s/p)
2. Espaço de experiências e horizonte de expectativas são duas categorias fundamentais formuladas por Koselleck na sua análise dos discursos e dos conceitos que lhe permitem perceber como, em um determinado contexto, os homens estão experimentando o tempo. Para defini-las, resumidamente, o autor nos diz, quanto ao espaço de experiências: “Tem sentido dizer que a experiência proveniente do passado é espacial, porque ela se aglomera para formar um todo em que muitos estratos de tempos anteriores estão simultaneamente presentes, sem que haja referência a um antes e um depois.” (KOSELLECK, 2006, p. 311) Quanto ao horizonte de expectativas, ele nos afirma: “Horizonte quer dizer aquela linha por trás da qual se abre no futuro um novo espaço de experiência, mas [...] a possibilidade de se descobrir o futuro [...] se depura com um limite absoluto, pois ela não pode ser experimentada.” (Ibidem). Para uma explanação mais apurada ver KOSELLECK, 2006, capítulo 14 - “‘Espaço de experiência’ e ‘horizonte de expectativa’: duas categorias históricas”.
3. A expressão vontade de modernidade ora utilizada não bem corresponde à explanação do termo Modernidade exposta anteriormente. Melhor talvez seria dizer vontade de modernização, indicando, a partir do sentido que lhe deu o próprio Renato Ortiz, a ação dos homens sobre os domínios materiais e simbólicos de sua sociedade no sentido de aperfeiçoá-los, inspirados por um processo de transformação social que lhes é externo, acreditando-se que isso sincronizaria as suas ‘atrasadas’ realidades com os ‘avançados’ centros de poder da sociedade capitalista. Porém, optei por manter a expressão original de Ortiz, acreditando não prejudicar, substancialmente, a compreensão. De qualquer forma, para evitar confusões, procurarei me valer de sinônimos para marcar esse processo, e destacar a Modernidade, enquanto tempo histórico, sempre iniciado por letra maiúscula. 
4.  Para instigante e erudita análise acerca do processo de massificação das cidades latino-americanas ver ROMERO, 2004, em especial os capítulos 6 e 7.
5.  Río Blanco era um pólo têxtil em Veracruz controlado principalmente por capital espanhol e francês com largo histórico de enfrentamento entre os operários e os patrões com auxílio das forças de segurança pública. Após uma intensa greve no início de 1907 foram convocadas duas companhias do Exército, para além das forças policiais, para ser controlada. (AGUILAR CAMÍN & MEYER, 2000, p. 21-23)
6. Cananea era uma cidade mineira na fronteira com o Arizona, que após o investimento de milhões de dólares americanos, explorou cobre vertiginosamente. Os trabalhadores, com a influência do anarco-sindicalismo, se organizaram para reivindicar melhores condições de trabalho. O estabelecimento da greve suscitou violentos confrontos. Seu impacto foi tão grande que após o acontecido, os créditos e mercados de Cananea se fecharam de tal forma que, pouco mais de um ano depois, teve suas atividades encerradas. (AGUILAR CAMÍN & MEYER, 2000, p. 20-21)
7. Nesse momento, quem ocupava a presidência era Francisco Madero, responsável pelo chamado às armas direcionado à nação e quem negociara a renúncia de Porfírio Díaz. Seus poucos anos de governo foram marcados por grande instabilidade, com repetidos fracassos no esforço de acalmar os ânimos após o início explosivo da guerra. No evento conhecido como a ‘Decena Trágica’, o Gal. Victoriano Huerta, um dos militares de maior prestígio no exército federal, é convocado para debelar uma tentativa de golpe contra Madero liderada por Félix Díaz, sobrinho de Porfírio. Após um acordo com Díaz e o embaixador dos EUA, Huerta resolve ele mesmo encabeçar o golpe. Francisco Madero, depois de preso, é assassinado juntamente com seu vice. (WOMACK Jr., 2002, p. 120-121)
8. A Convenção Revolucionária Mexicana tinha o intuito de promover discussões acerca do futuro do país convocando todos aqueles envolvidos na luta contra Huerta, após a sua derrocada. Era composta por diversos grupos heterogêneos, e para preencher o vazio de poder deixado pela renúncia de Huerta e ao mesmo tempo buscar um nome que transitasse entre os diversos grupos, nomeou como presidente interino a Eulálio Gutiérrez. Carranza que sempre se reconheceu como líder máximo e inconteste da Revolução, achou esse ato inadmissível e se retirou da Convenção. (BARBOSA, 2008, p. 9-11).
9. Villa: Não preciso de cargos públicos porque não sei o que fazer com eles.
[...]
Zapata: Os homens que mais trabalharam são os que menos aproveitam aquelas calçadas. [...] quando ando numa calçada, começo a cair. (Apud: AGUILAR CAMÍN & MEYER, 2000, p. 78)
10.  Inclusive a alcunha de ‘constitucionalista’ forjada por Carranza era com respeito a essa Constituição que ele enxergava como violada por Porfírio Díaz e depois por Victoriano Huerta.
11.  Francisco J. Mújica, anos depois, em pleno governo de Lázaro Cárdenas será o principal nome aventado como sucessor pelas suas afinidades ideológicas com o programa cardenista. No fim, acaba acatando a direção do partido e retira sua pré-candidatura em nome de Manuel Ávila Camacho, um nome capaz de acalmar os setores mais conservadores, muito inquietos após os seis anos de Cárdenas.
12.  “[...] a formação das Constituições não há sido outra coisa senão o resultado da experiência, o resultado dos desejos, o resultado dos anseios do povo, condensados nisso que se há dado em chamar Constituição.” HERIBERTO JARA. LAS REIVINDICACIONES SOCIALES Y NACIONALES EN EL ARTÍCULO 27, REFERENTES A LA PROPIEDAD AGRARIA (INEHRM, 1967, p. 221-222)
13.  “Estamos no momento mais solene da Revolução. [...] Porque naquelas etapas gloriosas [da Guerra Civil] não se tratava mais do que vencer de uma vez por todas ao que tinha o Poder usurpado em suas mãos ou de acabar com a reação, e aqui, senhores, trata-se nada menos que do porvir da pátria, do porvir de nossa juventude, do porvir de nossas crianças, do porvir de nossa alma máter, que deve engendrar-se nos princípios nitidamente nacionais e em princípios nitidamente progressistas, [...]” [grifos meus] FRANCISCO J. MÚJICA. EL ARTÍCULO 3° (Idem, p. 74-75)
14.  No contexto da Revolução Francesa analisado por Koselleck, ele diz: “Uma vez que a Declaração dos Direitos Humanos inaugurara um campo de expectativa social, todos os programas lançados em nome da liberdade e/ou igualdade pressionavam por uma realização subseqüente.” (KOSELLECK, 2006, p. 71) [grifo meu]. A hipótese com qual trabalho considera que, no caso mexicano, a Constituição de 1917 assumiu esse papel.
15.  Quanto à propriedade da terra, por exemplo, preferiu acordos com os grandes proprietários (WOMACK Jr., 2002, p. 166) com intenção de uma rápida retomada da produção, ao invés de responder (ou ao menos assim o esboçar) ao imperativo da reforma agrária, disposta artigo 27 da nova Constituição.
16.  A própria história prévia de Obregón o marcava como uma figura mais popular: era um comerciante médio do estado de Sonora, com algumas terras de cultivo, em contraste com Carranza que era de uma família tradicional de políticos. Além disso, as necessidades da batalha demandavam negociações com os diversos setores populares, com destaque para o acordo realizado com a Casa del Obrero Mundial –maior congregação operária da época – prometendo que lutaria pelos interesses dos trabalhadores, com o compromisso desses de ajudarem a alcançar a vitória na guerra e reerguer o país (BARBOSA, 2008, p. 12).  
17.  “2 - Inmediata reglamentación del artículo 123 de la Constitución Federal, procurando deslindar equitativamente las prerrogativas de los obreros y las obligaciones de los patronos.
3 - Para la resolución del más intenso problema nacional, tierra y justicia para todos, constituyendo y organizando la pequeña propiedad agrícola para todo aquel que realmente quiera cultivar la tierra, fraccionamiento de los latifundios con sujeción estricta al espíritu del artículo 27 constitucional, mediando el Gobierno activa, eficaz y equitativamente entre los latifundistas y los adquirentes, dotación de ejidos para aquellos pueblos que aún no hayan salido del estado comunal y sólo hasta que el desenvolvimiento de esas comunidades y a petición de ellas quieran entrar al sistema de la propiedad individual.” Manifiesto revolucionario de Adolfo de la Huerta. Veracruz, veracruz, 7 de diciembre de 1923. Disponível em: . Acesso em: 21/10/2010.

 

Fontes

CONSTITUCIÓN de México de 5 de Febrero de 1917. Disponível em: . Acesso em: 19/04/2010.
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